"Os Porcos de Trás os Montes"

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"Os Porcos de Trás os Montes"

Mensagem  Mestre da Culinária em Qui 13 Mar 2008, 13:08

O Porco

1. ESCULTURAS ZOOMORFAS

De acordo com o Abade de Baçal, há na província de Trás-os-Montes umas esculturas zoomorfas em pedra, granítica geralmente, representado quadrúpede, conhecidos pelo nome de Porcos ou Porcas, segundo indica a marcação sexual, nitidamente definida em muitos exemplares, se bem que noutros é incognoscível.

Idênticas esculturas se encontram nas vizinhas províncias espanholas de Salamanca e Zamora, que etnograficamente, em parte, muita conformidade tem com aquelas.

Em Portugal, fora da região transmontana, são desconhecidos, a bem dizer, estes monumentos, se bem que Martins Sarmento dá notícia de duas cabeças de porcos encontradas na exploração que fez das ruínas de Sabrosa. Encontra-se a sua fotogravura nas Religiões da Lusitânia, vol. 3, p.30.

Parece ser no distrito de Bragança onde abundam mais: são já conhecidas dezasseis, enquanto que no de Vila Real se aponta a Porca de Murça e as duas inéditas que adiante damos. Na província de Zamora conhecem-se duas: sendo uma delas e de San Vitero, de que falamos noutra parte, e na de Salamanca dez e mais uma desaparecida. Quer dizer: só o distrito de Bragança, à sua parte, conta mais esculturas deste tipo do que o resto da província transmontana e as duas vizinhas espanhola de Zamora e Salamanca.

Em algumas partes aparecem estas esculturas ligadas a pelourinhos, como a Porca da Vila de Bragança, que serve de suporte ao desta cidade, e a da Torre de D. Chama, mas nenhuma relação tem uma coisa com outra: os pelourinhos são medievais e posteriores e os quadrúpedes em questão remontam à pré-história, contando, portanto, milénios de antiguidade. Têm grande importância como documentação, primária talvez, da arte ibérica, além do significado étnico.

Aos porcos ou Berrões transmontanos correspondem em algumas províncias ibéricas outras esculturas zoomorfas, representando bois, cavalos, gatos, leões, etc., a que na Espanha dão o nome genérico de Toros de Guisando, tipificados nos existentes em Ávila. oran, acima citado, menciona, além dos porcos, mais dois touros existentes na província de Salamanca e seis desaparecidos por culpa de um idiota iconoclasta, governador de Salamanca, que os mandou despedaçar devido a supô-los símbolos ignominiosos colocados por Carlos I, nas povoações insurgidas contra ele durante a Guerra das Comunidades.

O porco teve grande prestígio na antiguidade: entre os doze trabalhos de Hércules conta-se o de haver segurado na corrida e morto um javali que assolava o país de Erimanto; era insígnia militar dos soldados espanhóis de cavalaria, e ainda algumas moedas de Clúnia do tempo dos romanos têm por divisa um javali; nos sacrifícios a Ceres imolava-se-lhe um porco, e «à Deusa romana Tellus, a terra, se sacrificava uma porca, a porca praecidanea».

Torre de Dona Chama: Na vila deste nome, concelho de Mirandela, sitio chamado Largo do Pelourinho, há em granito uma escultura representando um suíno, a que o povo, dá o nome de Berroa e Ursa.. Tem de comprimento 1,60m de altura 0,92 e de largura 0,36.

Não há dúvida de que os nossos antepassados ainda no século VI, embora cristãos, adoravam os animais: ratos, traças, formigas e outros, segundo usanças que lhes vinham do paganismo (1499); ainda acreditavam, como se vê da obra do bispo bracarense São Martinho, abaixo citada, que quem estava farto e contente no principio do ano, tinha a mesma satisfação garantida para todo ele, de onde as festas celebradas nesta época, às quais nos referimos noutra parte; nas vozes e cantos das aves (1500); em adivinhações e agouros; na eficácia das palavras mágicas e versos, nos malefícios e encantamentos feitos com ervas e fórmulas de feitiçarias; ainda enfeitavam as mesas, deitavam frutos e vinho no lume, pão na fonte, evitavam certos dias como nefastos (hoje, terças e sextas-feiras); ainda prestavam culto e certos penedos, árvores, fontes e encruzilhadas, de caminhos, acendendo lá velas. Ainda conservavam várias superstições gentílicas que o santo aponta e, coisa curiosa, ainda hoje achamos abundantes restos dessas superstições entre o nosso povo, que mantém intacta a teologia pagã a par da cristã, apesar da guerra que esta lhe move vai em vinte séculos. O cristianismo não acabará jamais, enquanto houver homens, como dizemos nós, os católicos, mas é necessário confessar que o paganismo e as outras religiões participam da mesma imortalidade.

A veneração e adoração dos animais, plantas e fontes começou naturalmente por ser um acto de reconhecimento do homem aos benefícios recebidos desses seres. É natural que o homem estimasse como santa a fonte que nas regiões áridas lhe matava a sede ou curava as doenças; a planta que lhe fornecia alimentos ou recursos terapêuticos; o animal que por razões especiais, se lhe tornava prestadio, etc. Daqui ao culto, à adoração, a reconhecer predicados de nume tutelar, vai um passo, principalmente em espíritos materializados. Os mais elevados em concepção espiritual para lá caminham, vendo nestas criaturas a providência do Criador.
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