O Folar e os Ovos da Páscoa

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O Folar e os Ovos da Páscoa

Mensagem  Mestre da Culinária em Qui 13 Mar 2008, 13:15

O Folar e os Ovos da Páscoa

A Páscoa é a festa mais importante do mundo cristão, a celebração da morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ao contrário do que possamos pensar, a Páscoa é muito mais marcante do que o próprio Natal, já que o acontecimento determinante para o mundo cristão é celebrado na Páscoa: a ressurreição de Jesus.

Encarada pelos cristãos como a festa da libertação, a Páscoa é uma das festas móveis do nosso calendário litúrgico, sendo o seguimento da Quaresma e culminando na Vigília Pascal.

A Páscoa que celebramos nos dias de hoje pouco ou nada tem a ver com a que era inicialmente celebrada, tendo sido deturpada ao longo do tempo, sobretudo com a introdução de inúmeros rituais de origem pagã.

A palavra Páscoa tem origem no hebraico Peseach, que significa passagem, transição. A Páscoa cristã é ela própria uma adaptação das celebrações judaicas da Páscoa, em que se celebra a libertação do povo Judeu e a passagem do Egipto para a Terra Prometida através do Mar Vermelho, chefiada por Moisés. Os primeiros cristãos, sendo principalmente judeus que abraçaram a nova religião, continuaram a celebrar a libertação do povo judeu mas atribuíram-lhe um novo significado, utilizando como mote um outro tipo de passagem - a da morte para a vida, com a ressurreição de Jesus que, por coincidência, teve lugar na altura em que os judeus celebravam a sua Páscoa.

Da Páscoa cristã ficaram-nos as seguintes tradições e símbolos:

- a Cruz da Ressurreição: representa o sofrimento e a ressurreição de Jesus Cristo.

- o Cordeiro: simboliza Cristo, que é o filho e cordeiro de Deus, sacrificado em prol de todo o rebanho (humanidade). Embora tido como símbolo da Páscoa cristã, o cordeiro já era muito importante na Páscoa judaica e nos cultos Teutónicos, onde era frequente o sacrifício de animais aos deuses.

- Pão e Vinho: representando o corpo e sangue de Jesus, o pão e o vinho são dados aos seus discípulos, para celebrar a vida eterna.

- o Círio: vela de enorme dimensão que se acende no sábado de Aleluia, que simboliza "Cristo, a luz dos povos". Alfa e Ômega nela gravadas querem dizer: "Deus é o princípio e o fim de tudo".

A palavra anglo-saxónica que significa Páscoa (Easter) tem origem pagã: deriva de Eastre, o nome da deusa Teutónica símbolo da primavera e da fertilidade, tradicionalmente celebrada durante o mês de Abril.

Deste culto da natureza pelos antigos ficaram-nos tradições como a dos ovos de Páscoa e do Coelhinho da Páscoa. De facto, os coelhos simbolizam fertilidade e os ovos coloridos vida renovada, um velho ciclo que termina para dar lugar a outro que começa na Primavera.
Nos países de influência anglo-saxónica são muito comuns os jogos com ovos coloridos, e a imagem dos coelhinhos é uma constante durante todo o período de celebração da Páscoa.

- Coelhinho da Páscoa: esta tradição nasceu na Alemanha, há muitos séculos, pelo que se dizia às crianças que os coelhos levavam os ovos e os escondiam nas ervas. Na manhã do dia de Páscoa as crianças tinham de procurar os ovos escondidos pelos coelhinhos.

- Ovos da Páscoa: os ovos de Páscoa são um costume típico de muitos países. Quer sejam ovos de galinha pintados, tradicionais sobretudo na Polónia e na Ucrânia, quer ovos de chocolate envoltos em papel decorativo brilhante, recheados de amêndoas e enfeitados com bonitas fitas, segundo os costumes mais ocidentais, o que é certo é que os ovos fazem parte do nosso imaginário pascal.

Muitas vezes colocam-se ovos tingidos juntos ao folar que se oferece ao padre. São também objecto de prendas entre namorados ou como presente para oferecer a pessoas amigas.


Ernesto Veiga de Oliveira dedica um artigo aos Folares e Ovos da Páscoa em Portugal na sua obra «Festividades Cíclicas em Portugal», editada pelas Publicações Dom Quixote na Colecção «Portugal de Perto». É por ela que nos vamos guiar a partir de agora, dando maior ênfase nas questões atinentes a Mirandela ou à região de Trás-os-Montes.

A Páscoa é em Portugal uma época característica de presentes cerimoniais, sobretudo de índole alimentar e os presentes da Páscoa levam o nome genérico de «folares». A maioria dos dicionaristas coloca a origem da palavra «folar» no latim «floralis». Moraes, sugere o étimo germânico «flado», que significa «bolo de mel». Faria e Lacerda assinalam-lhe como origem a palavra francesa «poularde». Definem o folar como sendo um bolo em forma de pinta pousada sobre um ovo, ou com um ovo em cima. Hoje são raros os casos dos folares que incluem a galinha.

Existem em Portugal diferentes espécies de folares, consoante a região. O mais corrente e divulgado é um bolo em massa seca, doce e ligada, feita com farinha triga, ovos, leite, banha ou pingue, açúcar e fermento e condimentado com canela e ervas aromáticas – uma espécie de regueifa ou fogaça – comum em todo o Sul, no Algarve e no Alentejo, na Estremadura, nas Beiras e na zona do Porto.

No sul são redondos, espessos e maciços e comem-se no domingo de Páscoa, ou, em certos sítios, na Sexta-Feira Santa, na segunda-feira a seguir à Páscoa ou na Pascoela. Nos arredores de Lisboa têm a forma ovolada, em Aveiro a de coração e podem tomar formas zoomórficas, lagartos, pintos, borregos, pombos, etc.

O Rio Douro marca o limite da difusão desse tipo de folar. No Nordeste montanhoso e planáltico de Trás-os-Montes, o folar é uma bola redonda, em massa dura, feita com farinha, ovos, leite, manteiga e azeite, que encerra bocados de carne de vitela, frango, coelho, porco, presunto e rodelas de salpicão, cozidos dentro de massa, que junto deles fica mais tenra com a gordura que deles se desprende. Podem ser grandes e altos, como em Bragança e Mirandela, ou achatados e pequenos, em massa seca, como em Freixo de Espada à Cinta.

Os folares em Trás-os-Montes e Mirandela são feitos em casa, no forno onde normalmente se coze o pão mas também nas padarias locais que oferecem apenas os fornos.

Ernesto Oliveira fala num conceito mais amplo de folar aí incluindo vários presentes cerimoniais de Páscoa, que obedecem a regras bem determinadas, como por exemplo:

- Os presentes obrigatórios que os padrinhos dão na Páscoa aos seus afilhados

A Grande Enciclopédia Luso-Brasileira regista ainda para a palavra folar o significado de direito paroquial de receber o presente dos paroquianos. Pedro de Azevedo aventa que o uso facultativo moderno de pedir boas-festas e dar boas-festas pelo Natal e pela Páscoa, não é mais do que o cumprimento voluntário de rendas ou foros que têm de se satisfazer em dias notáveis, determinados em contratos antigos.

Em algumas localidades, como em Mirandela, o folar do padrinho deve ser precedido, por parte do afilhado, da oferta de um ramos de flores, previamente benzido, no domingo de Ramos.

- O óbulo que se oferece ao padre, em casa, quando da visita pascal, ou «compasso»

Em Mirandela e em todo o Norte do País, o padre, de sobrepeliz e estola, precedido dos membros da confraria ou paróquia, de opa, e levando o crucifixo, a campainha e a caldeirinha, corre a freguesia a levar aos paroquianos a Boa Nova e a bênção pascal e a tirar o folar. O padre entra nas casas cuidadas e embelezadas e, com a saudação tradicional dá a cruz a beijar a todos os presentes que seguem o «compasso» e que se reúnem e ajoelham na sala principal em redor da melhor mesa da casa que está coberta com uma toalha de linho rendada, ao lado do crucifixo, dos castiçais, de jarras floridas e de um pires ou de uma taça com o «folar», geralmente um envelope com dinheiro dentro.


A tarefa não se afigura fácil para os visitantes, não só pelas grandes distâncias a percorrer ou esforço físico despendido, mas porque em todas as casas há que provar sempre qualquer coisa, desde o vinho fino ao bolo, um petisco ou pelo menos uma amêndoa.

- As ofertas determinadas que têm lugar na Páscoa entre pessoas ligadas por laços de parentesco genérico ou cerimonial, precário ou de validade atenuada, ocasional e temporária;

Em Freixo de Numão (Vila Nova de Foz Côa) existe o jogo pascal de mandar rezar: durante a Quaresma, um rapaz e uma rapariga engancham (os dedos mínimos das mãos direitas) dizendo: «Enganchar, enganchar, até ao dia da Páscoa, para que quando te vir, te mandar rezar». Depois disso, evitam encontra-se; mas quando isso sucede, o primeiro que vê o outro diz: «Reza», e vence dessa vez; mas a batalha final é no domingo de Páscoa: cada um dos enganchados esforça-se por sair vencedor, ainda que com batota, recebendo então do vencido o «folar», constituído por um bolo de farinha fina com ovos e açúcar, próprio da quadra, ou amêndoas de Páscoa (amêndoas cobertas que são uma especialidade em Torre de Moncorvo)

- As ofertas que se enviam aos noivos no dia do casamento

- Os mimos que se oferecem no Natal, embora muito raramente

É frequente em Mirandela ir comer o folar para o campo da aviação na segunda-feira a seguir ao Dia de Páscoa ou para o rio ou campo.
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