Batida ao javali

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Batida ao javali

Mensagem  Mestre da Culinária em Qui 13 Mar 2008, 13:20

Batida ao javali

Rui Magalhães, gestor desta página, já teve o privilégio de assistir a várias batidas ao javali na zona de Caça Associativa de São Pedro Vale do Conde, Marmelos e Bronceda, uma das quais do princípio ao fim, embora apenas como espectador. Numa das batidas o resultado final foram 34 javalis abatidos.

As montarias começam sempre com a concentração dos caçadores (10 horas) e o pequeno-almoço com pão, enchidos, vinho, azeitonas, folares, etc. É preciso ganhar forças e reforçar o espírito de grupo, de pertença e de identidade.

Segue-se o sorteio das portas (entre 50 e 100), ficando sempre uns beneficiados e outros prejudicados mas só o dia o dirá. Feito o mesmo, os caçadores são transportados de tractor, jipe ou carrinhas para o local onde se encontram as portas. Feita a distribuição, é dado o tiro do morteiro (12 horas) que inicia a jornada de caça ao javali. Pouco tempo depois já é possível ouvir os matilheiros e os cães a ladrar. Aumenta a adrenalina dos caçadores e estão todos ávidos para matar pelo menos um javali. O morteiro anuncia o fim da caça e é o regresso à base.

Colocados os javalis à vista de todos, dá-se início ao leilão, podendo os preços variar entre 100 e 500 euros, ou mais. É habitual reservar um ou dois javalis para a organização que os oferecer depois aos associados ou aos habitantes da aldeia.

O dia termina com um lanche ajantarado, não sendo inusual assistir ao baptismo de um caçador que abateu o seu primeiro javali e que é literalmente coberto de vísceras do dito.

Apresenta-se outra descrição de uma batida ao javali:

«No último sábado teve lugar, em Lagoaça, Freixo de Espada à Cinta, a habitual batida ao javali. Indiferentes ao frio, juntaram-se mais de 200 caçadores, vindos de vários pontos do país. Ao tombar do dia, à medida que as "armadas" iam chegando, o monte de javalis foi crescendo até somar 21.

Às 8,30 horas, os monteiros começaram a concentrar-se no bar junto às bombas de gasolina. A essa hora, já estavam estendidas sobre a mesa as várias iguarias regionais da praxe (pão, queijo, salpicão, presunto e chouriça assada). Quando os monteiros se juntam para o mata-bicho, procurando aquecer-se junto de grandes fogueiras, começaram também a ser servidos ovos mexidos e salsichas quentes e, já mais próximo da hora da partida, saiu uma canja de galinha. Passado algum tempo, foi anunciada a atribuição das portas, sem grandes pressas, esperando que melhorassem as condições meteorológicas. O nevoeiro espesso teimava em permanecer. Enquanto isso, a organização foi resolvendo alguns problemas de monteiros que apareceram, alguns vindos de longe, sem primeiro terem garantido a inscrição.

É que as manchas comportavam, apenas, 150 portas, enquanto os potenciais monteiros eram mais de 200. As recomendações da organização, pertencente à Associação de Caça e Pesca de Lagoaça. Às 11,30 horas, antes de partirem as "armadas", foram dadas as últimas recomendações, prevenindo também que as manchas fazem parte do Parque do Douro Internacional, onde é possível avistar espécies protegidas. Para gáudio da organização, a essa hora o nevoeiro já levantara.

Já passava das 13 horas quando os últimos monteiros foram largados e meia hora depois soavam os morteiros. A largada das 15 matilhas, constituídas pelos 375 cães, foi sinalizada pelo toque de cornetas e búzios. Na porta 118, em que nos instaláramos com Fernando Fidalgo, não tardou muito a surgir o primeiro momento de excitação. O trajecto de duas raposas através de trilhos feitos entre as escarpas da margem esquerda da ribeira dos Moinhos era perseguido pelos nossos olhos perscrutando tudo o que se passava à nossa frente a partir da curva do Moinho do Cruz.

Dois tiros afugentaram-nas, antes de terem de se confrontar com os cães. Já então as matilhas desciam pelo monte, bem conhecido pelos matilheiros, pelos vistos, apreciando nós o cuidado com que torneavam as fragas.

Os tiros começaram, então, a ser mais frequentes. Passados alguns minutos, o monteiro da porta 25 aproximava-se de nós para contar a forma como deixara escapar o javali que lhe passara a cinco metros dos seus pés.

Às 14,30 horas, no monte sobranceiro à estrada de acesso ao rio Douro, apareceu uma fêmea ao alcance da arma da porta em que nos instaláramos. Obrigados ao silêncio, esperámos alguns momentos pela perícia do atirador, que, apontando dois tiros, obrigou o bicho atingido a precipitar-se para a valeta da estrada. Puro engano, quando pensámos que tudo estaria arrumado, pois que, ao pressentir a nossa aproximação, a pequena fêmea ferida levantou-se e procurou defender-se, quando Fernando Fidalgo tentou agarrá-la a todo o custo. Foi necessário mais um tiro para a abater.

A partir daí, foi ver o tempo passar e apreciar a coragem e a persistência das pessoas que ainda se dedicam à agricultura por estas terras do Demo. Já passava das 16 horas, quando os monteiros começaram a abandonar aquele cenário prodigioso, um pouco antes, portanto, de soar o morteiro para terminar a montaria.

Contra alguns prognósticos que apontavam para a dúzia de javalis abatidos, no final contaram-se 21, dois deles navalheiros, com mais de 100 quilos cada. "Suspense" e paixão foram também os momentos a que assistiu Manuel Ferreira Magalhães, vindo de Pejeiro (Santa Maria da Feira), quando, do barco que acompanhava a montaria, os Bombeiros de Freixo de Espada à Cinta decidiram armar o laço a um javali que se precipitara no rio, perseguido pelos cães. Com a perícia dos bombeiros, aumentou o número de animais abatidos, e assim se culminou esta jornada que já tem pergaminhos.

Resta referir que esta montaria deve ter rendido 1100 contos com as inscrições e à volta de 600 contos com o leilão dos javalis abatidos, o que quer dizer que, feitas as contas, depois de pagas as despesas, pouca receita ficou para a Associação de Caça e Pesca de Lagoaça».
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