Moscatel de Setubal

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Mensagem  Mestre da Culinária em Ter 04 Mar 2008, 18:29

Quantos consumidores têm em casa uma garrafa de Moscatel de Setúbal? E quando é que o bebem? E a oferta do mercado é de molde a atrair ou a afastar os apreciadores? As respostas não são, quanto a nós, conclusivas.


Quando se fala dos vinhos generosos portugueses há sempre três regiões que nos vêm à cabeça: o Vinho do Porto, o Vinho da Madeira e o Moscatel de Setúbal. Aqui há 30 anos atrás, a listagem incluiria também o Carcavelos mas, como se sabe, esse vinho está pouco menos que morto.
Actualmente, de todos estes vinhos, apenas o Porto conhece momentos de glória. O Moscatel de Setúbal, tema do painel de prova deste mês, já viveu momentos de glória mas actualmente está bastante esquecido pelos consumidores. A área de vinha que tem a possibilidade de dar origem a vinho Moscatel não excede os 330 hectares, superfície que pode ser suficiente em termos de mercado interno mas que não permite grandes voos em termos de projecção internacional. Ainda assim, esta área é enorme, se compararmos com a de Moscatel Roxo: 10,8 ha, quantidade que não está de acordo com a enorme qualidade desta variedade de uva. É de esperar, face à procura, que esta área de vinha venha a ser aumentada, para gáudio dos muitos apreciadores.
A quantidade de vinho certificada para Moscatel de Setúbal não se tem afastado muito dos 1 250 000 litros e de Moscatel Roxo apresenta grandes variações anuais: 7 700 litros em 98, 3 300 l em 99 e 8 500 l em 2000.




Só para consumo interno


O Moscatel é praticamente todo consumido nas zonas de Setúbal e Lisboa.
O resto do país não bebe e a exportação é muito reduzida: essencialmente moscatéis velhos, e para nichos muito pequenos de mercado situados na Noruega, Reino Unido e Estados Unidos. Fica assim por conhecer um vinho que, nem no próprio país tem o destaque que merece.


Percebe-se facilmente as razões do gosto de noruegueses e ingleses. Os moscatéis velhos são bebidas divinas - de que o vencedor desta prova é um bom exemplo - e em nada ficam atrás dos melhores tawnies produzidos pelo Vinho do Porto. Já os vinhos novos podem ser mais difíceis de agradar a grandes maiorias: apresentam por vezes alguns aromas metálicos, têm grande presença de aroma de farinha quando são muito novos e (ver caixa) nem sempre se apresentam limpos.


Ainda assim, é um vinho que deveria ser objecto de maior procura porque tem boas condições para agradar, mesmo aos consumidores mais exigentes.




Moscatel com algodão?
Muitos consumidores já se depararam com um fenómeno vulgar nos vinhos generosos de Moscatel: com o tempo em garrafa, o vinho tende a ganhar um depósito no fundo da garrafa e a ficar turvo (no caso da garrafa não ser manejada com os devidos cuidados).
Esta alteração do vinho não deveria ocorrer, uma vez que os vinhos são filtrados antes do engarrafamento e, por isso, não deveriam ganhar qualquer depósito. É o que acontece com os vinhos do Porto do tipo tawny: são filtrados e por isso permanecem limpos, independentemente do tempo que fiquem engarrafados. Qualquer garrafa de um Porto 10 anos ou 20 anos pode ser manipulada sem que exista o perigo da turvação. Ora tal não se passa com o Moscatel e aconteceu precisamente isso com várias amostras presentes neste painel de prova.
Segundo Domingos Soares Franco (DSF), enólogo da firma José Maria da Fonseca (JMF), este fenómeno foi detectado pela primeira vez em 1983, com os vinhos da colheita de 1980. Sem que se percebesse exactamente do que se tratava foram enviadas amostras para um laboratório suíço que sugeriu uma passagem do vinho ao carvão, para a retenção de polifenóis com bactérias que tinham sido detectados nos vinhos. Percebeu-se entretanto que a prática tradicional na região de apenas adicionar o sulfuroso (que funciona como desinfectante) quando a uva entrava na adega e não no mosto ou no vinho acabava por favorecer este fenómeno. Como medida preventiva, passou a adicionar-se o sulfuroso também na altura do engarrafamento o que evita a chamada bactéria do algodão, um bacilo vulgar nos vinhos licorosos e que pode fazer aparecer um "cachos" de bactérias dentro da garrafa que lembram farrapos de algodão. Ainda segundo DSF, as macerações demasiado prolongadas (quase um ano) que se praticam na região, acabam por extrair tudo de bom e de mau que a uva tem. Na JMF o tempo das macerações não excede agora os quatro meses. Conseguiu-se assim (mais sulfuroso e menores macerações) diminuir muito o depósito na garrafa.
Pode no entanto aparecer, embora com muito menor expressão, ao fim de 6 ou 7 anos.
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